Alexandra Nascimento: a primeira brasileira a ser eleita a melhor jogadora de handebol do mundo

Alexandra Nascimento: a melhor jogadora de handebol do mundo

No Dia Internacional da Mulher, a atleta conta sua trajetória com exclusividade ao FOXSports.com.br

FOX Sports

Alexandra Nascimento estava em quadra treinando, como outro dia qualquer, quando o técnico da equipe austríaca Hypo NÖ entrou e comunicou que ela havia sido eleita a melhor jogadora de handebol do mundo. "Não sabia o que fazer, passei a tarde inteira chorando de felicidade. Nem passava pela minha cabeça ser indicada e ainda por cima ganhar", conta a atleta, em entrevista exclusiva ao FOXSports.com.br para o Dia Internacional da Mulher. Alexandra foi a primeira brasileira a conseguir o prêmio. Antes dela, nenhum representante do país havia ficado sequer entre os 5 finalistas.

Veja Também: Este já é o melhor Galo que eu vi

Cena de ‘Homem de Ferro 3’ é baseada no funeral de Ayrton Senna

Quem é o craque? Adivinhe o camisa 9 do São Paulo em 2009

Namorada do Ronaldo tira foto no espelho para postar no Facebook

Alexandra teve o primeiro contato com o handebol aos 10 anos de idade, numa escola de Espírito Santo, e se apaixonou pelo esporte. Começou a jogar profissionalmente aos 18 anos em Jundiaí, passou pelo time de Guarulhos e, depois de meia temporada, já foi chamada para jogar na Europa. A atleta estava no último ano da faculdade de Pedagogia, mas largou os estudos para jogar handebol na Áustria. "Não me arrependo disso, e minha mãe sempre me incentivou muito. Tive dificuldade, não tinha dinheiro pra ir aos treinos, pegava tênis do meu irmão para treinar, porque eu não tinha dinheiro para comprar tênis. Mas a minha mãe nunca me desestimulou. Ela sempre me apoiou financeiramente, quando podia. Quando não, eu pedia ajuda para minhas amigas, principalmente para comprar passagem".

No momento em que soube do prêmio de melhor do mundo, Alexandra imediatamente lembrou de seu passado. "Foi a primeira coisa que veio à mente. Vim da favela e agora estou aqui". Sobre o futuro, ela diz que não tem muito anos como atleta pela frente, mas que espera jogar até 2016 para conseguir uma medalha para o Brasil e encerrar sua carreira. Confira abaixo a entrevista na íntegra:

FOXSports.com.br: Dá para sobreviver como jogadora de handebol? 

Alexandra Nascimento: Sobreviver, sim. Atleta tem que ter cabeça boa para ir juntando dinheiro. A gente, aqui no clube, recebe casa e carro. Então o que a gente recebe, dá pra guardar.

É diferente jogar na Europa e no Brasil?

 No Brasil, infelizmente, handebol não é como futebol. Para ser jogadora profissional, tem que ser aqui na Europa, não tem jeito. Estou aqui faz 9 anos, jogando e treinando contra os melhores jogadores. Precisa ter esse contato. Na Europa, a gente treina duas vezes por dia. No Brasil, a gente não treina nem todos os dias da semana. Você não podia se entregar 100% ao esporte, porque não dá para viver do handebol, como eu faço aqui na Europa. A situação no Brasil está melhorando agora, com a bolsa-atleta. Quando eu comecei, não tinha dinheiro para pagar passagem, comer direito, nada.

Como você começou no handebol?

Meu pai jogou futebol profissionalmente, então tive esse incentivo ao esporte no sangue. Nós vivemos em São Paulo e depois fui para o Espirito Santo, onde, com 10 anos, eu me encantei com o handebol. Eu já tinha jogado futebol, vôlei, basquete, atletismo, mas nada que me inspirasse. Eu ia bem, mas não me destacava. Eu me apaixonei pelo handebol e nunca mais consegui largar. Eu até fiz faculdade de Pedagogia, mas larguei no último ano para ir para a Europa. Não me arrependo disso e minha mãe sempre me incentivou muito. Porque tive dificuldade, não tinha dinheiro pra ir aos treinos, pegava tênis do meu irmão para treinar porque eu não tinha dinheiro para comprar tênis. E minha mãe nunca me desestimulou. Ela dizia que queria que eu fosse feliz, realizada. Sempre me apoiou financeiramente, quando ela podia. Quando não, eu pedia ajuda para minhas amigas, principalmente para comparar passagem.

Você se sente realizada?

Eu só tenho a agradecer pelo resto da minha vida. Passei por dificuldades, mas consegui vencer na vida. Sou capitã da equipe. Tem outras 8 brasileiras aqui, e eu consigo traduzir o alemão para elas. Eu venho da favela. E agora, onde estou, não tenho nada a pedir a Deus. Ganhar o prêmio de melhor do mundo, não dá para explicar essa sensação. Sou realizada no trabalho e também como mulher. Conheci meu marido no handebol. O esporte me proporcionou uma vida melhor, conhecer outros países, outras línguas e ainda o homem da minha vida. Só tenho a agradecer.

Como foi ganhar o prêmio de melhor do mundo?

O Comitê Internacional indica 5 jogadoras e depois tem eleição por internet para o público, jornalistas e técnicos. Não esperava ganhar, até porque na Olimpiada não ganhamos contra a Noruega. Fizemos um belo trabalho e soube que saí de lá como a melhor ponta-direita e a quarta goleadora. Quando veio a notícia, não parava de chorar. Pensei no passado, é isso a primeira coisa que vem. Meu sonho sempre foi alcançar um grande prêmio na minha posição, o que já tinha conseguido depois da Olimpíada. Nem passava pela minha cabeça ser indicada à melhor do mundo e ainda ganhar.

O que mudou na sua vida desde então?

Mudou a minha forma de pensar. Eu ganhei esse prêmio pelo trabalho de 9 anos aqui na Europa, por todas as dificuldades que passei na minha vida, por aqueles momentos em que você acha não vai dar mesmo. Mas quando você acredita em uma coisa e faz aquilo realmente por amor, sem pensar no que vai ganhar em troca, só vai colher frutos positivos. Nunca pensei em dinheiro, em ganhar prêmio. Tento sempre dar 100% no treino, o que é o mais difícil na vida de um atleta: estar bem todos os dias, o dia inteiro. O sucesso não tem nada a ver com classe social. Eu venho da favela. Tem a ver com vontade e o tamanho do seu sonho, da sua fé.

E daqui para frente?

Vou continuar meu trabalho. Infelizmente não tenho muitos anos no handebol pela frente. Espero jogar ate 2016, trazer uma medalha para o Brasil e depois encerrar a minha carreira, porque eu e meu marido queremos aumentar nossa família. Já está na hora.

(Texto de Mayra Sartorato e Manuela Azenha)

Publicidade
Link copiado para a área de transferência!