Entenda a polêmica: quem a FIFA considera ou não campeão mundial com sua chancela

O FOXSports.com.br entrou em contato com a entidade máxima do futebol, que no último mês de janeiro, após comunicado do atual presidente Gianni Infantino, mudou sua posição quanto aos clubes legitimamente campeões

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Sem qualquer participação oficial em organização de torneios de clubes até 2000, a Fifa sempre passou saia-justa quando questionada sobre este tema, ainda mais que em décadas passadas coube aos próprios times e confederações de Europa e América do Sul organizar competições que tivessem esse caráter.

Em janeiro deste ano, a entidade máxima do futebol declarou que só chancela oficialmente campeões mundiais Fifa aqueles que participaram dos Mundiais organizados por ela, no caso, o de 2000, e os de 2005 em diante até agora. No entanto, declara reconhecer e valorizar as iniciativas que não partiram dela para definir campeões.

“A FIFA reconhece e valoriza as iniciativas para estabelecer competições de clubes mundiais ao longo da história. É o caso de torneios envolvendo clubes europeus e sul-americanos, como a pioneira Copa Rio, disputada em 1951 e 1952, e a Copa Intercontinental”, disse em comunicado ao FOXSports.com.br. “No entanto, foi só em 2000 que a FIFA organizou a primeira Copa do Mundo de Clubes da FIFA, com representantes de todas as seis confederações. Os vencedores desta competição, que se realiza anualmente a partir de 2005, são considerados oficialmente pela FIFA como os campeões mundiais.

Sendo assim, Palmeiras (campeão da Copa Rio), Flamengo, Grêmio, Santos e São Paulo (em dois títulos, de 92 e 93) não entram na galeria de campeões mundiais da entidade, embora eles se declarem campeões e na época de seus títulos havia o conceito e status que a competição dava.

Copa Rio de 1951

Em julho de 2016, a conquista da Copa Rio de 1951 pelo Palmeiras completou 65 anos e foi destacada e parabenizada pela FIFA, que, em sua postagem, colocou o time alviverde como “primeiro campeão global”. A primeira ação de reconhecimento proclamada pelo Palmeiras foi em 2007, em campanha encampada pela CBF, que enviou um documento ao clube brasileiro dizendo que a entidade reconhecia naquele momento o clube como primeiro campeão mundial de clubes.

Já em 2014 (na data citada pela Fifa na resposta), o Ministério do Esporte brasileiro também entrou na jogada para dar força ao título palmeirense. Neste momento, a FIFA enviou um documento para o Palmeiras e para a CBF sobre a conquista da competição. O procedimento foi semelhante ao que ela deu à Copa Intercontinental, em que a entidade máxima reconhece o título como de abrangência mundial, mas não concede a chancela que dá aos que ela mesmo passou a organizar, a partir de 2000 e 2005.

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Ao time alviverde, a entidade diz reconhecer o status de primeiro campeão de uma competição de conotação mundial, embora não o declare o primeiro campeão mundial. “Na reunião realizada em 7 de junho de 2014 em São Paulo, o Comitê Executivo da FIFA concordou com o pedido apresentado pela CBF de reconhecer o torneio de 1951 entre clubes europeus e sul-americanos como a primeira competição de clubes mundiais e Palmeiras como vencedor. No entanto, foi só em 2000 que a FIFA organizou a primeira Copa do Mundo de Clubes da FIFA, com representantes de todas as seis confederações. Os vencedores desta competição, que se realiza anualmente a partir de 2005, são considerados oficialmente pela FIFA como os campeões mundiais”, diz comunicado.

A atitude da FIFA chega a ser um recuo, já que, conforme mostrou o FOXSports.com.br, em 2013, a Fifa havia enviado documento para o Palmeiras que o chamava de primeiro campeão mundial.

Copa Intercontinental

A Copa Interncontinental foi criada em 1960 em comum acordo entre as confederações da América do Sul e da Europa, sem participação da FIFA. Em certo período, foi disputada em dois jogos, ida e volta, e posteriormente decidia apenas em jogo único, no Japão, com patrocínio da montadora japonesa Toyota, que passou a dar nome ao torneio. Foi disputada de 1960 a 2004.

Apesar da ausência da entidade máxima do futebol na realização do torneio e de ganhadores continentais fora do eixo América do Sul e Europa, como Ásia, África e CONCACAF, os clubes vencedores sempre se autoproclamaram como campeões mundiais, sobretudo os sul-americanos. Apesar da ausência da chancela da FIFA, imprensa e torcedores dos países sul-americanos sempre consideraram o vencedor do torneio como o campeão global do ano.

A real “validade” que os clubes europeus deram ao torneio para considerar o vencedor como campeão mundial sempre foi algo muito controverso. A conquista da Champions League sempre foi mais valorizada, e na Europa o termo campeão mundial foi utilizado com menos frequência, ao longo da história, do que na América do Sul.

Diferenças Europa e América na descrição

Real Madrid, Milan, Manchester United, Inter de Milão, Bayern de Munique e São Paulo foram os únicos clubes que ganharam os dois torneios: Copa Intercontinetal e o Mundial de Clubes organizados pela FIFA. Os cinco times europeus, na galeria de títulos em seus sites oficiais, distinguem as duas competições em nomes diferentes: Mundial de Clubes da FIFA a Copa Intercontinental, não contabilizando as duas como um mesmo título.

Já o São Paulo, único clube da América do Sul a vencer as duas, coloca seus três títulos (2 Intercontinentais e 1 Mundial de Clubes da FIFA) todos como conquistas de título mundial, chamando de “Mundial Interclubes” os três títulos.

Times precisam de chancela da Fifa para se dizerem campeões mundiais?

Conversando com alguns de seus narradores e comentaristas, o FOXSports.com.br coletou as mais diversas opiniões sob o tema, porém, chegou ao consenso: A FIFA está se metendo onde não deve, e desrespeitando a história do futebol, que existe há muito mais tempo que a própria entidade.

Gustavo Villani: ‘A FIFA se meteu numa polêmica barata, sem sentido, esdrúxula. Como desconsiderar o Mundial do Santos, em cima do Benfica de Eusebio? Ou mesmo o Mundial do Real Madrid de Raúl e Ronaldo Fenômeno, sobre o grande Vasco de Juninho, Felipe e cia? Enfim, muitas equipes históricas merecem o título Mundial. Está na história, não é a FIFA que apaga o que foi conquistado em campo.’

João Guilherme: ‘Eu acho que a história do futebol consagra essas equipes que venceram a Copa Intercontinental, que para nós aqui brasileiros é chamada de Mundial de Clubes a partir de 1960, com o Santos sendo o primeiro campeão, aliás, foi bicampeão, depois tivemos o Flamengo, Grêmio, São Paulo. Estes times estão reconhecidos pela comunidade do futebol como campeões do mundo, um grande exemplo é o próprio Real Madrid, ele computa na sua galeria de títulos, além daqueles que ele conquistou após a chancela da FIFA, também os anteriores. Ou seja, mesmo que a FIFA não reconheça, o que é um absurdo, porque o futebol existe antes da FIFA existir. Ela é a entidade máxima do futebol, mas ela tem que respeitar a história do futebol, então é inequívoco, mesmo com a FIFA não reconhecendo, essas equipes são sim campeãs do mundo, e na sua história, na sua galeria, para os seus torcedores, isso continuará valendo’.

Rodrigo Bueno: ‘A FIFA faz o que lhe cabe, apenas reconhece e autentica torneios e premiações que ela organiza. Isso serve para tudo. Houve Mundiais de futebol de salão e de Beach Soccer antes de a Fifa assumir essas modalidades, por exemplo. A Fifa só conta os Mundiais desde que ela assumiu. A FIFA criou seu prêmio de melhor jogador do mundo depois da Bola de Ouro, que ela só reconheceu enquanto houve a fusão dos dois prêmios. O mesmo vale para a Copa Intercontinental, que foi absorvida pela FIFA. A máxima entidade do futebol, até por razões financeiras, quer ter o controle de tudo que se refere ao futebol, mas quase nunca ela é pioneira na organização das disputas. O futebol, aliás, nasceu bem antes da FIFA’.    

                   

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