Copa dos Refugiados junta quatro continentes em colégio de elite de SP

Copa dos Refugiados junta quatro continentes em colégio de SP

Gramado da tradicional escola Santa Cruz serviu de palco para disputa entre representantes da Costa do Marfim, Mali, Congo, Haiti, Colômbia e Síria

Gazeta Press

Embora seja um evento de repercussão global, o Mundial da Fifa é, de certa forma, elitista e excludente. Os altos preços dos ingressos para acompanhar as partidas nas modernas arenas construídas para o torneio restringem o público, formado em parte por estrangeiros, convidados de patrocinadores, políticos e seus asseclas. A competição, paradoxalmente, serviu como inspiração para a Copa dos Refugiados.

Na manhã de domingo (29 de junho), o torneio reuniu “gente diferenciada” no tradicional Colégio Santa Cruz, frequentado pela elite paulistana. O gramado da instituição serviu de palco para partidas entre representantes dos africanos Costa do Marfim, Mali e Congo, além de Haiti, Colômbia e Síria. As partidas foram disputadas, com agarra-agarra antes das cobranças de escanteio e reclamações ríspidas junto aos árbitros.

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“Os que participam efetivamente da Copa do Mundo nos estádios são brasileiros integrantes das classes média e média alta, além dos turistas estrangeiros. Para os refugiados, fica completamente inviável. Todos eles adoram esporte, principalmente futebol. O foco desse evento é a integração entre as pessoas, e o futebol permite que haja esse elo”, explica Marcelo Haydu, um dos organizadores do torneio.

A Copa do Mundo dos Refugiados, vencida pelo Haiti, é uma parceria entre a organização não-governamental Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado – Brasil e a plataforma social Atados, dedicada a facilitar o engajamento de pessoas dispostas a atuar como voluntários. Por meio de um sistema de financiamento coletivo na Internet, as entidades arrecadaram R$ 3,720,00, superando a meta mínima de R$ 2,7 mil.

O evento que reuniu pessoas de quatro continentes ocorreu na esteira do Dia Mundial dos Refugiados (20/06). As equipes foram formadas por moradores e ex-moradores de distintas instituições que recebem forasteiros em situação de vulnerabilidade social, como a Casa do Migrante e o Arsenal da Esperança. Em alguns casos, brasileiros completaram os times.

“Os refugiados chegam ao País em condições precárias, geralmente com escassos recursos financeiros depois de gastar com o transporte até aqui. São pessoas com poucas alternativas de lazer. Queremos oferecer essa possibilidade e fazer com que possam interagir entre si. Normalmente, eles convivem apenas com os compatriotas. Aqui está todo o mundo junto, integrado, se divertindo e brincando”, explicou Aydu, fundador da Adus.

Uma das atividades da entidade é oferecer aos refugiados a possibilidade de acessar espaços aos quais eles normalmente não têm acesso, como museus e teatros. Antes dos jogos do Mundial disputados no Itaquerão, a organização não-governamental levou grupos aos arredores da arena. Para compensar a ausência dentro dos estádios da Copa, a ideia é oferecer ingressos para partidas do Campeonato Brasileiro.

Impossibilitado de participar do Mundial padrão Fifa, o metalúrgico Stanley Sylvestre, um dos milhares de haitianos que imigraram para o Brasil, se divertiu na Copa dos refugiados. “A gente não tem muitas opções de lazer, porque tudo depende do dinheiro. Esse torneio foi muito legal para juntar as pessoas. Encontrei alguns haitianos que eu mesmo não conhecia. Somos haitianos e devemos jogar juntos, assim como os africanos e colombianos”, disse o integrante do campeão do torneio.

A Copa do Mundo dos refugiados não se resumiu aos jogos. Do lado de fora do campo, estrangeiros e brasileiros de divertiram ao som de músicas típicas de cada país. Havia churrasco e algumas oficinas, como a de pintura. Além do dinheiro captado por meio do sistema de financiamento coletivo, os organizadores costuraram parcerias com diferentes empresas para viabilizar o evento.

O auxiliar administrativo Christian Cervantes vestiu a camisa da Colômbia no campeonato disputado no colégio Santa Cruz. Insatisfeito com o número de jogadores de outras nacionalidades necessários para completar sua equipe, ele estava mais preocupado com o duelo diante do Brasil, pelas quartas de final da Copa do Mundo, previsto para a próxima sexta-feira, em Fortaleza.

“Se fosse um time com 11 colombianos, a coisa aqui seria diferente”, afirmou, de nariz torcido. “Mas ainda estamos felizes pelo triunfo da Colômbia (contra o Uruguai) na Copa do Mundo. Até agora, o time está uma maravilha, vem jogando muito bem. Nas quartas de final, queremos uma nova vitória, acreditamos muito nessa seleção. Vamos jogar contra o Brasil e ganhar por 4 a 1”, declarou Cervantes, com uma confiança digna de Dom Quixote de La Mancha.

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