O anti herói de 1963 Quando Almir Pernambuquinho foi Pelé

O anti-herói de 1963: Quando Almir Pernambuquinho foi Pelé

FOXSports.com.br relembra participação decisiva do substituto do Rei em dois dos três jogos da final do Mundial, disputado contra o Milan

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O ataque santista do bi mundial de 1963 está na ponta da língua de qualquer apaixonado por futebol: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Almir Pernambuquinho e Pepe. Almir Pernambuquinho? Sim, o Peixe não contou com o “dono do time”, o Rei Pelé, em dois dos três jogos da final da Taça Intercontinental daquele ano, contra o Milan – o baixinho assumiu a titularidade e decidiu. Mas quem foi ele? “Um maluco de gênio violento, às vezes até meio inconsequente, tanto é que foi assassinado”, contou Odir Cunha, historiador do clube.

“Não era um louco, só temperamental”, corrigiu, gargalhando, Pepe, ponta-esquerda do Alvinegro à época. No primeiro duelo da decisão, na Itália, em 16 de outubro, os brasileiros não viram a cor da bola: 4 a 2 para os rossoneri, que sempre estiveram à frente no placar. Como se não bastasse, os paulistas também perderam o zagueiro Calvet, o volante e capitão Zito e o eterno camisa 10, todos lesionados. “O jogo foi muito violento, o juiz deixou o pau comer”, explicou Odir.

Para o lugar de Pelé, Lula, o treinador, tinha duas opções: Almir ou Toninho Guerreiro. "A segunda partida era no Maracanã e o Pernambuquinho tinha muita moral no Vasco, os cariocas gostavam dele. Além disso, ele queria uma revanche, pois havia sido maltratado na Europa, quando passou pela Fiorentina e pelo Genoa”, disse Pepe, ao justificar a escolha. “Ele foi um substituto excelente, foi a chave de tudo. Não tinha medo de cara feia e era muito respeitado”, garantiu Coutinho, o centroavante do esquadrão.


Jogadores do Santos comemorando o título (Divulgação)

O primeiro tempo do confronto do jogo de 14 de novembro seguiu com Milan em vantagem. Mazzola e Mora abriram 2 a 0 em 17 minutos. O mesmo Mazzola ainda desperdiçou chance sem goleiro, debaixo da trave, nos últimos minutos da metade inicial. “Alfredinho, auxiliar técnico do time, foi ao vestiário e ofereceu ‘bolinha’, um doping energético, aos jogadores. Almir aceitou. Ele tinha o hábito de usar, pois passava as noites na rua, sem dormir, e precisava disso até para treinar”, revelou Odir. “Nós sabíamos que ele era meio ‘matusquela’, mas aquele dia estava incrível. Ele pegava os dedos da mão e fingia que iria cegar os italianos. Ele diz que se dopou e eu acredito”, confirmou Pepe.   

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Goleiro faz golaço de bicicleta e vira herói na Espanha

No tempo final, “depois que caiu um temporal, o Santos voltou a campo com uma vontade danada de jogar”, recordou o ponta-esquerda. “Era pau na moleira e bola pra frente”. Em cinco minutos, Pepe, de falta, diminuiu. Almir irrompeu no meio da zaga, pouco depois, e deixou tudo igual, aproveitando cruzamento de Mengálvio. Lima, em outra bomba de fora da área, virou. Mais tarde, o Canhão da Vila repetiu a fórmula e fechou o caixão. “Eu pouco me importava se a bola era grande, pesada, pequena, com o bico assim, assado, para cima ou para baixo. Eu simplesmente enfiava o pé nela”.

Dois dias depois, de novo no Maracanã, Peixe e Milan voltaram a se encontrar, desta vez pelo jogo desempate. “É claro que não é uma coisa boa, mas Pernambuquinho foi responsável pela saída de dois goleiros. Ele entrava para quebrar nas divididas”, lembrou o historiador. No jogo anterior, Ghezzi foi a vítima. Balzarini iniciou o terceiro, mas levou um chute na cabeça e deu lugar a Barluzzi. De Pelé, no vestiário, Almir ouviu: “Confio em você”. “Ele estava eufórico”, disse Pepe. Aos 31 minutos, quando Maldini se preparava para despachar o perigo da área, o substituto do Rei testou a bola e sofreu pênalti. “Ele diz no livro: ‘Eu poderia ter ficado cego ou morrido, mas precisava fazer aquilo'”. Dalmo cobrou no canto direito e fez o gol do título, mas o herói da conquista foi outro.


Santistas entram no Maracanã carregando bandeira do Brasil no jogo decisivo (Divulgação)

“Rei deposto”? Não para Almir

Em vingança contra o Milan, Almir tinha um alvo especial. Odir Cunha conta a história:

“A história entre Amarildo, Pelé e Almir começa em 1962, quando Pelé se machucou no segundo jogo da Copa do Mundo. Amarildo o substituiu, entrou na terceira partida e fez os dois gols contra a Espanha. Desde então se firmou no time a ponto de fazer o primeiro tento da final. Ele saiu com muita moral daquela Copa.

Quando o Peixe foi jogar na Itália, contra o Milan, em 63, ele disse que o Pelé estava acabado, que o Rei estava deposto e ele era o novo melhor do mundo. Isso criou um clima de guerra. O Almir ficou cabreiro porque achou desrespeitoso. ‘Não admito um brasileiro falar mal do Pelé’, dizia. Ele jurou o Amarildo: ‘Quando você jogar no Rio de Janeiro, você vai ver’. No primeiro lance ele deu uma entradinha de leve. Depois, o rival correu pela ponta esquerda, na altura da intermediária e o Almir deu um pontapé bonito, daqueles que pega no pé que está atrás. O Amarildo saiu rolando”.

A morte trágica

Aposentado desde 1968, Almir Pernambuquinho morreu em 1973, aos 36 anos. Em 6 de fevereiro, enquanto bebia em um bar de Copacabana, no Rio de Janeiro, tirou satisfação com algumas pessoas que estavam agredindo verbalmente atores-bailarinos do grupo Dzi Croquettes. “Ele era valentão, metido a colocar o dedo na cara dos outros”, contou Odir Cunha. O ex-jogador deu um tapa no rapaz, que puxou uma arma e acertou a cabeça do rival com um tiro. O assassino alegou legítima defesa e não foi preso. 

(Reportagem de Fernando Notari)

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