Caso Corinthians: exagero e incoerência

Um clube e seus milhões de fãs devem mesmo pagar por um crime cometido por alguém que simplesmente veste a sua camisa?

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!Qual a culpa que tem o Corinthians pela morte de Kevin Espada? (Foto Arena)
Qual a culpa que tem o Corinthians pela morte de Kevin Espada? (Foto Arena)

Que me perdoem muitos, mas vou remar contra a maré.

A punição ao Corinthians de jogar todos os seus jogos com portões fechados é muito exagerada.

Antes de tudo, quem escreve aqui é um jornalista que passou dezenas de horas dos últimos dias vendo imagens da tragédia em Oruro, lendo, assistindo e editando inúmeras reportagens sobre o caso, produzindo outras tantas, destrinchando causas e consequências de um ato inconsequente e criminoso.

Não é fácil para um pai de um menino de sete anos, que adora futebol e já frequenta estádio, ficar alheio e insensível ao caso. Absolutamente não é o caso. Ao contrário. Trata-se de uma morte horrenda, imperdoável e, sobretudo, desnecessária.

Mas daí a punir-se pesadamente uma instituição, e indiretamente milhões de pessoas pelo crime cometido por um ou dois indivíduos, vai uma distância enorme.

Faço questão de não opinar baseado no regulamento da Conmebol, aquele tal que admite até a exclusão do time da Libertadores. Este não é um parecer jurídico. É uma reflexão pelo bom senso.

Pés no chão, cabeça fria, clubismos guardados no baú, proponho algumas questões:

Qual a culpa que tem o Corinthians pela morte de Kevin Espada? O clube era o mandante do jogo? O responsável pelo policiamento? O encarregado pela revista na porta do estádio? O dono do estádio em Oruro? O responsável legal pela pessoa que apontou uma arma mortífera em direção aos torcedores do San José? Foi o Corinthians que bancou a ida do culpado para a Bolívia, lhe deu ingresso, um rojão e ordenou que soltasse o artefato para frente?

Um clube e seus milhões de aficionados devem mesmo pagar por um crime cometido por alguém que simplesmente veste a sua camisa?

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Quando um ladrão ou sequestrador aparece na TV com a camisa de um clube ao ser preso - quantas vezes já vimos esta cena? - o clube em questão deveria também ser punido por isso? A comparação parece absurda? Mas pense outra vez: É mesmo tão absurda assim?

Quando, recentemente, torcedores do Atlético Mineiro foram condenados por espancar até a morte um cruzeirense já caído no chão próximo a um estádio, o clube também deveria ser punido? Quando, em agosto de 2012, um torcedor do Vasco, a caminho do estádio, morreu acuado e baleado por bandidos que usavam camisas do Flamengo, o clube deveria ter perdido mandos de campo? Não? Qual a diferença para o caso na Bolívia?

o que vai desencorajar novos crimes semelhantes aos citados não é a punição ao clube. É a condenação criminal rigorosa e impiedosa dos culpados, e só deles

O fato é: o que vai desencorajar novos crimes semelhantes aos citados não é a punição ao clube. É a condenação criminal rigorosa e impiedosa dos culpados, e só deles. Quem matou, espancou, emboscou, premeditou, que pague à luz da lei. Cadeia. Ponto final. 

E que tudo isso sirva, pelo menos, para que nós brasileiros tenhamos algum dia a mesma - justíssima - sensibilidade demonstrada com a morte do menino boliviano ao se deparar com tragédias cotidianas e numerosas pelos motivos mais banais que se espalham por aqui. Que algum dia deixemos de ser seres quase insensíveis às desgraças sem graça. Fome, dengue, crack, bala perdida, assalto, estupro, atropelamento, essas tragédias não-midiáticas que raramente punem seus culpados. Eu entendo, Jean Charles e Kevin Espada são roteiros muito mais comoventes.

E fazem pensar até que no Brasil a vida vale muito.

Mas coerência não é o nosso forte.

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