Agora a onda é torcer para jornalista

Rodrigo Bueno, comentarista dos canais FOX Sports, levanta um debate sobre a 'torcida' por jornalistas que acontece nas redes sociais

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Os novos tempos e as novas mídias talvez expliquem um novo fenômeno: os torcedores de jornalistas. Algo cada vez mais comum, uma torcida ou um grupo qualquer identifica um representante na grande mídia e o defende com unhas e dentes como se fosse mesmo seu time de futebol. Acompanham programas e posts como se fossem uma extensão do jogo. Os torcedores dos jornalistas incentivam, estimulam, aplaudem, veneram e até ajudam seu ídolo com dados e argumentos para ele derrotar o adversário.

Quando eu sou escalado para o FOX Sports Rádio, por exemplo, tem gente que me escreve na linha “janta o Benja”, “cala o Sormani”, “mostra para o Mano” , “pergunta para o Pascoal”, “ensina o Flavinho” e por aí vai. Quando apareço no Expediente Futebol, aparecem mensagens do tipo “encara o PVC”, “explica para o Quesada”, “rebate o Edmundo”, “alguém precisa falar para o Zinho isso e aquilo”, “não deixa o João fazer assim e assado”. No Bom Dia FOX, sempre alguém me pede para “peitar o Paulo Lima” ou “divergir dos números do Eugênio”. No Tarde Redonda, ocorre a mesma torcida para eu ir para cima do “anti Fábio Azevedo”. No Debate Final, a situação é parecida com o “danadinho do Téo José”. E é assim com praticamente todo mundo. O povo quer treta, quer jogo, quer vencer.

Mais recentemente, com a ajuda do Mano Menezes, que sugeriu a vinda de jornalistas portugueses para o Brasil para qualificar mais os debates esportivos, cresceu também a torcida por comentaristas gringos, alguns que até nem são jornalistas. As análises ótimas do luso Pedro Bouças sobre o Flamengo no Canal 11 em Portugal foram destacadas por mim e por muitos torcedores, sobretudo rubro-negros. Mas Pedro Bouças não é jornalista, ele é formado em educação física e atua como treinador de futebol, é um excelente analista do jogo. Ele ganhou certa fama agora no Brasil e tem motivado mais esse desejo justo por uma melhora na imprensa esportiva nacional, algo que vem sendo pedido desde o 7 a 1. Sou a favor da competência em todas as áreas, independente da nacionalidade. Respeito demais gente de fora que tem contribuído para o jornalismo esportivo brasileiro, citando aqui o lendário italiano Claudio Carsughi, o único comentarista que meu pai curtia quando eu era garoto, e o descolado britânico Tim Vickery, com visão global e diferenciada do nosso futebol.

Torcedor geralmente é passional. E em quase tudo no Brasil hoje há há um Fla-Flu, uma divisão ferrenha de opiniões: política, religião, cultura, meio ambiente, esporte, comportamento etc. Acho que é natural esse processo que tem tomado conta das mídias sociais e até dos sites de notícias mesmo. Discussões em programas esportivos dão audiências para os canais e dão muitos links para as matérias que as destacam na internet. Parece que hoje há um prazer do torcedor com um Edmundo x PVC quase tão grande quanto em um Flamengo x Corinthians. Às vezes as discussões são mais animadas e rendem mais likes do que as partidas mesmo. Tem torcedor que não fica satisfeito com a vitória do seu time. Ele corre para torcer para seu jornalista predileto "humilhar” o adversário no programa. E na repercussão nas mídias sociais você percebe que os torcedores defendem os seus jornalistas queridos como se fossem mesmo seus times de coração. 

Acho natural alguém procurar uma voz ou um representante na mídia, algúem que tenha visão parecida com a sua. Normalmente, quando falamos de imprensa esportiva, o torcedor costuma adotar o jornalista que é é do mesmo Estado e do mesmo time. Esse não seria bairrista ou clubista, se bem que às vezes é chamado de corneteiro também. Não é algo novo na mídia a figura do jornalista torcedor, afinal todo mundo tem um time preferido mesmo, alguns assumem e outros preferem omiti-lo apenas. Talvez a grande novidade hoje em dia é a massa de torcedores tão dedicada aos jornalistas. As pessoas esperam que você defenda o time delas, a causa delas. Se você faz isso, você é legal. Se você não faz isso, é um lixo, um verme e outras cositas. Refletir sobre isso pode parecer uma bobagem ou pode contribuir um pouco, quem sabe, para uma imprensa esportiva melhor, mais isenta. Aliás quase ninguém acredita mais em isenção no país, e isso vale para todas as esferas da sociedade, inclusive a imprensa. 

Crédito da foto: FOX Sports

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