Clóvis Rossi e a inveja

Quem conheceu e conviveu com Clóvis Rossi sabe de suas muitas virtudes, que vão bem além do conteúdo, da categoria e até mesmo da velocidade de seus textos

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“Eu tenho inveja de você”

A frase acima poderia e deveria muito bem ser dita por mim ao brilhante Clóvis Rossi. Só que ela foi dita, mais de uma vez, por ele a este humilde jornalista que digita de forma bem mais lenta do que a maior referência (incluindo o tamanho) que a Folha tinha em seus quadros.

Quem conheceu e conviveu com Clóvis Rossi sabe de suas muitas virtudes, que vão bem além do conteúdo, da categoria e até mesmo da velocidade de seus textos. Andava de forma lenta, pelo menos desde quando eu o conheci, em 1995, mas ninguém terminava um texto antes dele em todo este Velho Oeste. E os textos vinham precisos e carregados de bom humor e humildade, as características que eu mais gostava nele. 

Por que esse conselheiro, nobre correspondente e lenda da Folha teria inveja de um garoto que chegou aos 22 anos para ser redator da editoria Esporte? Porque eu comecei a escrever muito sobre futebol internacional, tanto que virei colunista ainda em 1997 na Folha (nos aproximamos um pouco mais em um certo almoço para colunistas). Clóvis Rossi podia escrever bem sobre tudo (política, economia, cotidiano, cultura...), mas sua tara parecia ser mesmo o futebol internacional, especialmente a Champions League, mais especialmente o Barcelona (ele inclusive assumiu, de forma diferenciada, torcer mais pelo time catalão do que pelo Palmeiras).

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Inúmeras vezes, quando eu estava na redação à tarde vendo e escrevendo sobre os jogos da Champions, Clóvis Rossi passava e trocava figurinhas comigo. Ele queria ficar mais tempo ali desfrutando de sua paixão, mas sempre havia alguma guerra ou algum atentado ou alguma crise política ou mesmo alguma reunião do jornal para roubar a atenção dele. Quando comecei a viajar mais para cobrir jogos e torneios na Europa, vislumbrei a chance de tabelar com o simpático mestre e parceiro de resenhas futebolísticas. Só que sempre alguma questão “maior” impedia.

Infelizmente, não cobri in loco a Copa da França, disputa que teve Clóvis Rossi como craque da numerosa equipe enviada pela Folha. Até conheci os estádios do Mundial de 1998 em uma excursão do time da Aceesp antes de começar o evento, mas, na hora em que o bicho pegou mesmo, era Clóvis Rossi quem estava em campo, desfrutando na batalha. Isso era mais do que compreensível, porém como eu queria estar assinando algum texto com ele logo na primeira Copa em que eu estava na Folha. Em outras duas oportunidades, eu estive bem perto de assinar com ele um texto sobre um importante jogo de futebol, porém ele era mesmo especial...  

Clóvis Rossi pediu para ser credenciado para a Eurocopa de 2004, em Portugal. O torneio europeu de seleções é sempre bacana, mas talvez ele tenha previsto que o desfecho seria grandioso também no Brasil por conta da revolução que Luiz Felipe Scolari causou no país ibérico. A Folha e a imensa maioria da imprensa nacional só foi perceber de fato a dimensão daquela Euro quando Portugal chegou à final. Eu então fui enviado para cobrir o fatídico jogo entre o time de Felipão e a zebra Grécia. Talvez eu encontrasse Clóvis Rossi em Lisboa, afinal ele pediu ingresso para todos os principais jogos da competição. Acho que ele tinha que tratar, como de costume, de algum outro assunto mais relevante para o jornal e não foi.

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Cobri sozinho aquela final e fui punido duplamente por causa de Rossi na Euro-2004. Primeiro, porque ele não foi para Portugal e não me permitiu assim dividir com ele o prazer da parceria. Segundo, porque ele não deu baixa nos pedidos de ingressos para os jogos que ele deixou de ir, e a Uefa decidiu castigar o jornal, restringindo o meu trabalho em Lisboa. 

Dois anos depois, a mesma seleção de Portugal e o mesmo Felipão quase me uniram a Clóvis Rossi de novo. Na minha peregrinação deliciosa pela Alemanha na Copa de 2006, não tive contato com a seleção brasileira e com o nobre amigo. Quando o Brasil caiu nas quartas de final, a grande atração para o país passou a ser a seleção portuguesa de Scolari. A chefia me destacou então para cobrir os lusos, que fariam a semifinal contra a elegante França de Zidane. Rossi também fora destacado para cobrir Portugal, o que me deixou ainda mais animado. Pensei mesmo que nos veríamos e assinaríamos conjuntamente as reportagens sobre esse embate. Só que Rossi teve que deixar a cobertura, creio que foi para Paris.

Fiquei apenas imaginando ele escrevendo em poucos segundos um texto diferenciado com nossos nomes, e eu tentando acompanhá-lo digitando vagarosamente alguns penduricalhos para a versão digital do jornal, que engatinhava na época. Na reunião antes do embarque para a Alemanha, todos os enviados ouviram que deveriam escrever textos para o papel e para o online. Rossi pediu a palavra e disse que só escreveria para o papel. Todo mundo, incluindo a chefia, entendeu de boa. Ele podia. E, até quando ele fazia uso de seu status e sua posição no jornal para definir algo, fazia de forma doce e humilde. Comigo foi sempre assim, do início ao fim.

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Não tenho inveja de ninguém, mas eu deveria ter sim de Clóvis Rossi. Pelo talento dele na minha profissão, pelo cara bacana que ele foi e, claro, por dividir comigo a paixão pelo futebol internacional mesmo quando isso não estava tão na moda e quando a Folha separava o “Futebol” do “Futebol Mundial”. Assim como o futebol, Clóvis Rossi dominou o mundo.

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