Quando Coutinho e Eurico quase me agradeceram

Rodrigo Bueno, comentarista dos canais FOX Sports, relembra histórias com os dois personagens que morreram recentemente

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O futebol brasileiro perdeu nos últimos dias duas figuras de destaque que cultivaram uma fama em comum: trato difícil com parte da imprensa. Eurico Miranda, de forma escancarada, comprou brigas até com a Globo. Coutinho, mais reservado, não era muito de dar entrevistas e, algumas vezes, mostrava-se bem incomodado com a abordagem dos jornalistas. Vou relatar aqui duas experiências que tive com ambos na condição de repórter da Folha de S. Paulo. São histórias diferentes, claro, mas que mostram um pouco de como era a relação dessas duas figuras com a imprensa.

Começando pelo lendário atacante, lembro que peguei seu telefone com um colega de redação que logo me avisou que o Coutinho era “difícil”. Perguntei se ele era estrela, metido, mascarado. Meu amigo disse que não, que ele era um pouco arredio, respondia de forma curta e grossa muitas vezes. Precisava falar com ele para alguma reportagem e liguei. A primeira impressão de fato não foi lá muito boa. Ele não mostrou muito prazer em me atender, parecia mesmo ser um sofrimento para ele falar com jornalistas, ele me fez sentir como se eu o estivesse importunando.

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Depois, ouvi relatos do motivo que teria feito Coutinho ter essa relação fria com parte da imprensa. As constantes associações com Pelé o deixavam de certa forma “menor”. Pelo que me contaram, ele gostaria de ter mais identidade própria, mas quase sempre que um jornalista ou outro alguém o procurava era para falar do “Rei”, das tabelinhas com ele, da parceria com o gênio e por aí vai. Coutinho não tinha raiva do Pelé, mas entendia merecer mais destaque individual. A dupla famosa ajudou a imortalizá-lo, mas ao que parece o tornou também refém dessa parceria.

Eis que o jornalismo me deu a oportunidade de tirar um gol de Pelé em Libertadores e dar ao Coutinho. Liguei para o centroavante em 2011 pouco antes da final entre Santos e Peñarol para repercutir o erro histórico da Conmebol, que computava dois gols para Pelé nos 5 a 4 sobre o aurinegro uruguaio nas semifinais de 1965 quando na verdade quem fez dois gols nesse dia foi Coutinho (um aos 38 minutos do primeiro tempo e o quinto e último do Santos). “Não me importo com isso”, respondeu de cara Coutinho, que, segundo a lenda, muitas vezes era confundido em campo com Pelé. Há quem brinque com a ideia de que, “quando saía o gol, era o Pelé, e quando perdia o gol, era o Coutinho”. Talvez por ouvir coisas do tipo por décadas, Coutinho tenha ficado um pouco desgostoso com a mídia.

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Coutinho passou a ter um gol a mais em Libertadores, mas isso interessava menos para o noticiário do que “Pelé tem um gol a menos” ou “Conmebol erra em conta”. A própria lista dos gols de Pelé diz que nessa partida contra o Peñarol no Pacaembu, de longe uma das melhores na história da Libertadores, o “Rei” fez só um. Dessa forma, Pelé foi artilheiro dessa edição com 7 gols, não 8, e marcou no total da competição 16 vezes, não 17. Confira na lista dos principais artilheiros da Libertadores se a conta de Pelé está atualizada ou não. E aproveite para ver se você acha Coutinho. 

Não esperava um “obrigado” de Coutinho pela reportagem que fiz que melhorou suas estatísticas pessoais e que comprovou, de fato, que tinha gente que o confundia com Pelé em campo. Mas eu esperava nos dois primeiros contatos com ele um papo mais saboroso sobre o que nós dois amamos: futebol. Alguns anos depois, voltei a falar com Coutinho, desta vez para um livro. Falamos por muito mais tempo e ele se mostrou bem mais solícito, disposto. Parecia mais feliz, mais relaxado, nada azedo. Eu o vi dessa forma em entrevistas mais recentes, em algumas aparições na TV, em reuniões com os ex-companheiros de Santos, inclusive com Pelé. Pepe, um velho amigo, disse que Coutinho era alegre. Fiquei feliz ao ouvir isso.

Mudando de Coutinho para Eurico, que dizia que Pelé e todos os jogadores negros deveriam agradecer ao Vasco por sua luta contra o racismo nos primórdios do esporte no Brasil, também tive a chance de contornar a “fera”. Foca (jornalista em início de carreira) passa por uma certa provação quando tem que falar pela primeira vez com alguém que desafia a imprensa e cresce para cima de quem se mostra de alguma forma fraco. Ligar para Eurico, aquela figura que eu via bradando na TV e que posava como um poderoso chefão em tribunas e tribunais, decidindo em campo e fora dele os rumos de jogos e campeonatos, era um desafio.

Eurico era inteligente e astuto. Procurava saber quem eram os jornalistas, seus veículos, o que falavam dele e de seu clube. Ele usou muitas vezes a imprensa para alcançar os seus objetivos e os de seu time. Ele não tinha prazer nenhum em visitar São Paulo ou mesmo de falar para um jornal de São Paulo, mas sabia a repercussão da Folha e do que um contato com um repórter desse jornal poderia causar. Quando me atendia facilmente, normalmente era porque tinha algum interesse. Foi assim no caso da “Taça das Bolinhas”, história que desenterrei de um cofre da Caixa Econômica Federal em 2002, ou na classificação nos bastidores do Vasco para a Copa Sul-Americana de 2003, a primeira com times brasileiros. 

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Para quem não sabe, houve uma reviravolta na Copa Sul-Americana de 2003 também por erro da Conmebol. Publiquei algumas reportagens mostrando que o ranking criado pela entidade, e que indicou times para a disputa, estava cheio de equívocos. Dentre os clubes mais lesados nesse ranking, estavam o Palmeiras e o Vasco, que ficariam de fora da nova competição. Jogariam apenas os seis primeiros do Brasileiros de 2002 (Santos, Corinthians, Grêmio, Fluminense, São Paulo e São Caetano) e dois clubes convidados com base no ranking (Cruzeiro e Flamengo). Liguei para Mustafá Contursi, então presidente do Palmeiras, para repercutir o ranking cheio de furos e ele disse que levaria o caso para a CBF e que o Palmeiras pegaria uma das vagas. Aproveitou para me agradecer pela reportagem e me convidou para ir tomar um café no seu clube. Com Eurico foi diferente. Ele me procurou ao ver a reportagem que eu tinha feito e que beneficiaria o Vasco, ainda mais em uma disputa (no ranking) com o Flamengo.  

Após me dar os parabéns pela reportagem e dizer que eu vinha fazendo um “grande trabalho” como jornalista, Eurico soltou as aspas que a matéria e ele precisavam: “Não vão sacanear o Vasco duas vezes. Não vou admitir que outros times entrem e o Vasco fique fora”. A CBF então tratou com a Conmebol de inchar a Sul-Americana, colocando 12 clubes do país na disputa. Palmeiras e Vasco jogaram dessa forma o torneio em 2003, assim como Atlético-MG e Internacional. Falei algumas vezes depois com Eurico sobre outros temas, alguns inclusive negativos sobre o Vasco e ele próprio. O polêmico dirigente quase sempre me atendeu bem, mesmo eu atuando em veículos de comunicação bastante críticos com a cartolagem nacional. Não houve um “obrigado” dele por ter de certa forma ajudado o Vasco em 2003, mas houve respeito pelo meu trabalho, assim como respeitei o esforço dele, muitas vezes insano e questionável, pelo seu clube.

Crédito da foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br

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