A nova revolução da Holanda

Equipe holandesa conseguiu um empate heroico diante da Alemanha. Após estar perdendo por 2 a 0, a Laranja Mecânica fez 2 a 2 nos últimos cinco minutos de partida

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Não é de hoje que a Holanda é associada a novidades e revoluções em termos de futebol. A mais recente “inovação” foi o zagueiro-centroavante, uma surpresa até para o técnico Koeman e que deu muito certo contra a Alemanha no final. O Carrossel Holandês deixou uma profunda marca no esporte mais popular do mundo e toda equipe utiliza até hoje conceitos daquela fabulosa equipe que encantou na Copa de 1974. O ressurgimento recente da seleção holandesa, vencedora do Grupo da Morte da Liga das Nações, já fez muita gente festejar a volta da mítica “Laranja Mecânica”, mas é preciso ter muita calma com um time extremamente jovem, com apenas um jogador na casa dos trinta anos (Ryan Babel, 31, antigo alvo do Flamengo). O atual time da Holanda tem média de só 25 anos de idade, embora a Copa do Mundo deste ano tenha mostrado, com França e Inglaterra, sobretudo, que a tendência é de seleções mais jovens mesmo.

Alguns dos principais destaques da equipe têm idade olímpica ainda, casos do zagueiro De Ligt, de 19 anos, e Frenkie de Jong, 21. Outros são atletas que pintaram como grandes promessas mas que só agora parecem estar maduros, casos de Memphis Depay (ele gosta de ser chamado de Memphis por questões familiares) e Promes (autor do primeiro gol holandês no histórico 2 a 2 na Alemanha na última segunda-feira). Porém onde atuam esses jogadores da seleção holandesa? Os dois jovens estão ainda no futebol holandês, no Ajax. Os outros dois integram o elenco de Lyon e Sevilla, times medianos em termos europeus. A Holanda não tem hoje atacantes do mais alto nível do futebol mundial, a nova geração não produziu ainda um Cruyff, um Van Basten, um Bergkamp ou um Robben. Os dois jogadores mais consagrados do grupo são Van Dijk e Wijnaldum, que atuam no Liverpool. Wijnaldum já tem muita experiência em seleção (53 jogos, sete a menos que Blind, o que mais defendeu a Laranja no time atual), até fez o terceiro gol holandês nos 3 a 0 no Brasil na Copa de 2014.


*Reprodução

Ronald Koeman tem apenas dez jogos ainda à frente da seleção da Holanda. São quatro vitórias, algumas realmente expressivas (3 a 0 na Alemanha, 2 a 0 na França e 3 a 0 em Portugal), quatro empates (um deles histórico contra a Alemanha e outro contra a badalada Bélgica na casa rival) e duas derrotas (uma delas na França quando endureceu o jogo para os atuais campeões mundiais e outra na estreia dele para a Inglaterra). O nível de adversários foi alto, a melhora da equipe laranja de fato é grande, mas nada que aponte já para um novo Carrossel ou algo do tipo. A grande esperança individual da Holanda atende pelo nome de Redan, um artilheiro de 17 anos que já pertence ao Chelsea e brilha nas seleções de base. Ele não estará na fase final da Liga das Nações em junho do ano que vem, quando a Holanda tentará o primeiro título do torneio competindo com Portugal, o país-sede e atual campeão da Europa, a Inglaterra, única campeã mundial ainda viva na disputa, e a Suíça, que despachou a Bélgica.

Koeman foi um dos campeões da Eurocopa de 1988, é um dos símbolos da grande rivalidade entre Holanda e Alemanha, e sabe como foi marcante para o seu país rebaixar a seleção alemã e superar os dois últimos campeões da Copa do Mundo. A autoestima está voltando ao futebol holandês com o bom e velho 4-3-3, esquema básico da Laranja desde o Carrossel. Em alguns momentos Koeman fez uso de linha de cinco para se defender, como Van Gaal fez com sucesso na Copa de 2014, porém a Holanda mostra de novo um caráter ofensivo, pautado na posse de bola. O que há de novo então na atual Holanda, além da juventude do time, claro? 


*Reprodução

Por enquanto a novidade mesmo é o Van Dijk, um ótimo zagueiro de 1,93m, atuar deliberadamente como centroavante em alguns momentos das partidas. Um papel com um desenho tático diferenciado (3-2-3-2 com Van Dijk de centroavante) foi encontrado no gramado no final do 2 a 2 entre Alemanha e Holanda por dois ex-jogadores da seleção, Van der Vaart e Van Hooijdonk, hoje comentaristas de TV. Koeman, ao final do jogo e com a classificação épica consumada, foi indagado sobre a mudança drástica de posicionamento do time e de seu zagueiro e capitão. Ele disse, com toda a humildade do mundo, que não sabia daquilo. Foi o auxiliar de Koeman, Dwight Lodeweges, quem teve a ideia da mexida. O papel chegou às mãos de De Ligt e depois parou em Van Dijk, cujo primeiro nome é Virgil (no papel, jogadores são citados pelo primeiro nome). Não deu outra: Van Dijk foi à frente e decidiu o jogo, decretou o empate que classificou a Holanda.

Na Copa de 2014, a Holanda inovou trocando goleiro para a disputa de pênaltis (saiu Cillessen e entrou Krul para classificar a Holanda para a semifinais). Quando Van Basten virou técnico da Holanda, havia no contrato dele uma cláusula para o time jogar bonito, uma exigência para que a Holanda “atue ofensivamente, dominando e praticando reconhecível futebol”. Não deu muito certo com Van Basten, mas essa foi mais uma ideia diferenciada do futebol holandês. Cruyff, um dos mais geniais atletas de todos os tempos, já converteu pênalti em quatro toques em 1982 quando defendia o Ajax. Rinus Michels, o mentor do Carrossel Holandês, foi eleito pela Fifa oficialmente como o melhor técnico do século 20 muito pelas suas ideias inovadoras, como a famosa linha de impedimento. A figura do zagueiro-centroavante não foi lançada agora, mas é uma arma de quem pensa fora da caixinha, de quem ousa, de quem não tem medo de fugir do óbvio. Esse é o grande barato e a grande característica do futebol holandês. Contra a Alemanha, o assistente decidiu, não o técnico. Alguns podem entender isso como quebra de hierarquia, outros como uma boa iniciativa.

Creio que foi Gullit que tentou explicar a diferença entre o jogador alemão e o jogador holandês. Você diz para um jogador alemão ficar na lateral, não passar do meio-campo e marcar o camisa 7. O jogador alemão entra em campo e executa a ordem pura e simplesmente. Você diz para um jogador holandês ficar na lateral, não passar do meio-campo e marcar o camisa 7. O jogador holandês vai perguntar o porquê disso e só cumprirá a ordem se ficar convencido de que aquilo é o melhor a ser feito.

O futebol holandês faz pensar. Como é bom vê-lo em alta!

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