Helena Calil: The Best of Marta

O mundo do futebol deve agradecer à menina de 14 anos que pegou o ônibus de Dois Riachos rumo ao Rio de Janeiro para mudar de vida e fazer história

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Colocamos as duas cadeiras. Cinegrafista ajeitou o cenário com a bela vista dos montes da Granja Comary. Pronto, era só esperar o treino da Seleção Brasileira terminar. Aguardávamos Marta. Já havia entrevistado a camisa 10 da seleção em outra oportunidade. Mas foi em um evento, rapidamente, com uma pergunta apenas e muita câimbra na tentativa de conseguir uma posição boa entre tantos veículos de imprensa, no meio de uma zona mista.

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Ali não. Tinha o silêncio de Teresópolis, e alguns minutos pra pensar,  enquanto ela terminava o treino de finalização. Otimizamos esse tempo: minha equipe testou mais uma vez a luz e o enquadramento, e eu resolvi testar os meus conhecimentos. Entrei na internet para achar algo além dos feitos históricos da maior jogadora do mundo.

E foi em um site internacional que encontrei uma carta escrita pela própria Marta para ela mesma. Uma mensagem que a Marta de 2017 escreveu para a Marta de 14 anos de idade. Uma verdadeira viagem ao passado. Senti o nó se formando na minha garganta. O texto era simplesmente incrível. Meus olhos já estavam marejados, quando ouvi os passos na grama. Era Marta se aproximando. Rapidamente me recompus, guardei o celular e a cumprimentei.

Com bom-humor, começamos a conversa. Entre os assuntos, a vontade de ser novamente a melhor do mundo, após ter recebido o prêmio em cinco edições. O último tinha sido em 2010, e de lá até este ano, os desafios foram intensos e até pensou em parar com o futebol. Falou também do próximo compromisso com a seleção, a Copa América (que conquistaria meses depois).

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Quando Marta terminou de responder a última pergunta, mostrei o meu celular a ela. O sorriso fácil, que ela tinha esboçado até então, sumiu. No lugar, um olhar de surpresa. Perguntei se ela tinha escrito aquela carta. Ela confirmou. Pedi então para que ela fizesse a leitura daquelas palavras em voz alta. "Não faça isso comigo", me respondeu. "Choro toda vez que leio este texto". No entanto, precisou apenas de um respiro bem fundo antes de começar a dar vida à história.

"Querida Marta de 14 anos de idade. Entre no ônibus. Eu sei o que você está pensando. Eu sei o que você está sentindo. Não pense nisso… No quanto você está assustada… No quanto você está nervosa… No quanto todo mundo disse que você não podia fazer isso… Que você não deveria fazer isso…Não pense em nada disso…Apenas entre no ônibus…

Fim do primeiro parágrafo e Marta já chorava muito. Fez uma pausa, respirou fundo mais uma vez e seguiu:

"Este ônibus, se você acreditar, se você puder acreditar, vai te levar numa viagem de três dias para o Rio de Janeiro. Este ônibus deixará para trás a sua família e os 11 mil habitantes de Dois Riachos. Este ônibus deixará estradas de terra para as paisagens verdes e montanhas para a cidade. Este ônibus… te levará para realizar o teu sonho, o sonho de se tornar uma jogadora de futebol profissional. E te levará para muito mais".

As lágrimas de Marta seguiram, junto com o texto, que relembra as conquistas de nossa rainha. Só não tem o prêmio FIFA da última segunda-feira, que será guardado junto com a sua primeira medalha do colégio, como a própria Marta disse durante a premiação. E eu acredito em você, Marta, pois aprendi que tem verdade em tudo o que faz. É genuinamente rainha. Verdadeiramente a melhor de todOs. Sem gênero. Porque seis vezes, só você. Obrigada, nossa camisa 10, por tudo o que representa. E obrigada a Marta de 14 anos de idade, por ter entrado naquele ônibus.

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Crédito: Flickr Palmeiras

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