Fazer bico ou bater palma?

O que você faria se fosse a principal vítima de uma lenda do futebol? Dilema vivido por Antonio Adan, goleiro do Betis, e driblado com humildade

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No último dia 26, vulgarmente conhecido como ontem, foi o dia do goleiro. Uma data dedicada ao personagem que é o primeiro a chegar para treinar, porém é o último a sair. O atleta que passa pela pressão constante, por aprovações cruéis, mas que nem sempre é reconhecido.

Poderia aqui citar grandes nomes históricos da posição, como já fiz em anos anteriores. Mas hoje vou destacar um goleiro que me chamou a atenção em 2018. Não pela sua carreira, até porque, pouco conheço sobre ele. Nem pelo seu reflexo, vigor, determinação, foco, ou qualquer outro substantivo necessário para ser um arqueiro respeitável. Na verdade, foi a sua humildade que motivou esse texto.

Em janeiro deste ano, o Betis foi massacrado pelo Barcelona em casa, no campeonato espanhol. Uma goleada de cinco a zero. Dois de Messi, fora o baile do argentino. Agora você imagina o goleiro da equipe, Antonio Adan, após uma derrota tão devastadora como essa, sofrendo cinco gols, diante de sua própria torcida. Não, eu estou falando sério. É para imaginar! Coloque-se no lugar desse cidadão por um momento, pense, e responda à pergunta que vem na sequência. Está pronto? Então lá vai: se você fosse Adan, o que teria feito após a partida?

a) (a mais usada no futebol) simplesmente daria as costas, fingiria que não viu os jornalistas, e seguiria o seu caminho até o vestiário, e iria embora;

b) envolveria-se com o calor da partida e apontaria erros de arbitragem, da equipe, culparia o passarinho que voou baixo, o senhor que espirrou na arquibancada, o gramado e, com sorte, falaria até de suas próprias falhas;

c) reconheceria que está diante de um fenômeno;

Alguns podem até estranhar a última opção. Ela acontece, juro, com um pouco mais de frequência que a passagem do cometa Halley. Por isso, pode levar algum tempo até que outro atleta dê uma declaração tão sincera como a concedida pelo goleiro, logo após a partida, à rádio espanhola "Cadena Ser":

“É o Messi, né?! Ele demonstra a cada jogo que é um dos melhores, se não o melhor jogador da História. É espetacular como ele não tinha aparecido muito no primeiro tempo, era como se estivesse passeando pelo campo. Mas de repente ele tira quatro bolas, e é capaz de dar duas assistências e marcar dois gols. Tem que parabenizar o Messi, porque faz esse esporte ser melhor”

Uma declaração que pode parecer obvia para mim, para você, para qualquer um que viva neste planeta. Que observe este monstro. Mas você teria a nobreza de reconhecê-lo após um vexame, no qual você tenha sido o principal alvo?

Se essa pergunta tivesse sido feita ao Andrada, em 1969, a resposta seria negativa. Dia 19 de dezembro. Sessenta e nove mil pessoas lotando o Maracanã para ver o milésimo gol de Pelé. E o pênalti foi marcado. O rei foi para a marca da cal. Andrada defendia a meta vascaína. O resto do enredo, todo mundo conhece. É inesquecível também a insatisfação do goleiro, revoltado por achar que o fato de ter tomado um gol tão marcante, desprestigiaria a sua trajetória. Ah, Andrada, se você soubesse que o seu nome se eternizaria na História, junto com o gol, talvez tivesse refletido melhor sobre a ideia.

Mas não é fácil reconhecer. A linha é tênue entre a autodefesa e a humildade. Nem sempre é fácil engolir o orgulho para assumir que teve a oportunidade de ser testemunha de um evento histórico. Foi o que fez, por exemplo - fugindo do tema "goleiro" - a torcida do Real Madrid, em 2005, quando o Barcelona venceu por três a zero o clássico, em pleno Santiago Bernabeu, com dois gols e show de Ronaldinho gaúcho. Os aplausos da torcida merengue ao bruxo dão cor e som ao sentimento sobre o qual escrevo aqui.

Por isso concordo com o goleiro do Betis. Na verdade, é matemático: com qual frequência veremos verdadeiras lendas do futebol em nosso espaço de vida? E diminuindo ainda mais a probabilidade, qual é a chance que teremos de acompanhá-las, ao vivo, em um dia de pura inspiração?! E se tivermos sorte de sermos um dos escolhidos, e caso sejamos as vítimas, seria melhor gastarmos a energia do momento com mesquinharia, rancor e justificativas, ou simplesmente batermos palmas?

(Crédito da imagem: Agência EFE)

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