Rodrigo Bueno: "A Premier League deve muito a Wenger"

Depois de mais de 20 anos no comando do Arsenal, o revolucionário treinador francês se despedirá da equipe londrina no fim desta temporada

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Enfim chegou o anúncio oficial da saída de Arsène Wenger do Arsenal. O treinador francês, que assumiu os Gunners em 1996, deixa um legado importante, não apenas no popular time londrino, mas também na hoje badalada Premier League. A fase moderna do Campeonato Inglês começou na temporada 1992/1993, quando a outrora fechada disputa começou a abrir as portas de vez para estrangeiros.

A Lei Bosman, selada em dezembro de 1995, escancarou então a busca por talentosos gringos, transformando a Premier League no campeonato símbolo de globalização, recebendo jogadores de todos os cantos do planeta. Elencos numerosos passaram a ser montados e times com poucos ou até nenhum atleta inglês viraram algo corriqueiro. A tentativa de novas ideias, até para sair do velho “kick and rush”, levou à contratação de técnicos de outras nacionalidades também. E nenhum outro causou tanto impacto positivo no estilo de jogo da Premier League como Arsène Wenger.

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Historicamente, os ingleses sempre reconheceram o valor dos treinadores escoceses. Alex Ferguson foi apenas um dos filhos da Escócia que foram canonizados na Inglaterra. Mas os escoceses são britânicos, mal podem contar como estrangeiros de verdade. São figuras que já estavam enraizadas no futebol inglês há séculos. Quando Arsène Wenger chegou ao Arsenal, Sir Alex Ferguson já estava no seu décimo ano no comando do Manchester United, e os Diabos Vermelhos já eram o time dominante na recém-criada Premier League.

Com seu tom professoral, Wenger apostou num estilo vistoso de jogo, numa equipe disciplinada, que prioriza o jogo ofensivo, a troca de passes, a qualidade técnica, o refinamento. Tal postura causou certa estranheza de início, até para os Gunners, como o capitão Tony Adams, um símbolo da força do futebol inglês. O Arsenal é um time bélico no nome e no símbolo, mas passaria a ser reconhecido no mundo como uma equipe elegante, charmosa, plástica. Uma bandeira da Inglaterra passou a jogar à francesa, como um time latino, com posse de bola e com arte, algo que faltou em grande parte dos times ingleses na história.

Posse de bola e troca de passes sempre foi uma marca maior do futebol escocês no Reino Unido. Mas a Premier League e, sobretudo o Arsenal, aceitou essa “modernidade”, essa mudança de perfil. Os franceses e os ingleses têm historicamente uma relação complicada, há rivalidade até cultural entre as duas nações, mas isso foi sendo superado aos poucos por Wenger.

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O técnico francês começou triunfando em sua primeira temporada completa, ganhando o Campeonato Inglês e a Copa da Inglaterra em 1997/1998. Claro que esse sucesso precoce deu fôlego para Wenger à frente dos Gunners, ele teve mesmo um início melhor que o de Ferguson no Manchester United. Mas Wenger não é alemão, não tem os resultados como seu principal objetivo. Ele trata o futebol com esmero, ele gosta de trabalhar seu time como uma orquestra mesmo. Por isso começou a buscar no mercado, especialmente, atletas jovens e de refinamento técnico. Na esteira disso, deu prioridade a conterrâneos, como Vieira e, mais tarde, Henry. Continuou ganhando troféus, o que foi lhe dando poder e status no clube. A torcida o adotou de vez: “No Arsène, nós acreditamos”.

O título invicto na temporada 2003/2004 foi a coroação de seu trabalho, a cereja no bolo de sua filosofia. Numa liga extremamente competitiva e de muito contato físico, um dos times mais vistosos já montados na história, levantou a taça dando espetáculo. Aquela equipe virou uma referência de futebol bonito e eficiente, um dos melhores contra-ataques da história, tendo Henry como sua referência máxima dentro de campo. Um centroavante elegante, assim como o meio tinha volante clássico, um toque elegante.

Ganhar jogando de forma vistosa é algo que muitos desejam e poucos conseguem, poucos têm a coragem de tentar vencer desse jeito. Além da lenda Ferguson e seu milionário Manchester United, Wenger teve que enfrentar na Premier League a injeção de dinheiro pesado em outros clubes, com destaque para Chelsea e Manchester City. Os Gunners mudaram do charmoso Highbury para o moderno Emirates, o que serviu como desculpa durante um bom tempo para um investimento não tão grande em craques no Arsenal.

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Mas a verdade é que Wenger manteve-se fiel aos seus princípios e sempre preferiu moldar seu time, não comprá-lo no mercado. Virou um crítico das contratações vultosas no futebol mundial. Assim foi perdendo competitividade ao longo dos tempos. Bateu na trave na Champions League em 2006, perdendo a final para o Barcelona de Ronaldinho e adiando assim o sonho maior do Arsenal, virgem no torneio.

A figura de José Mourinho, completamente antagônica com a de Wenger, ganhou força na Inglaterra. O dinheiro, a competitividade e a marcação foram de novo valorizadas. A tática e a defesa triunfaram sistematicamente sobre a técnica e o ataque. Wenger sofreu muito até nas mãos de alguns times e técnicos especialistas no futebol de bolas longas, ligação direta e laterais-monstros. O Stoke City virou pedra em seu sapato, por exemplo, durante um bom tempo. Sam Allardyce e Tony Pulis foram alguns dos opositores ao estilo de Wenger que tiveram também seus momentos nessa tão decantada Premier League.

Como comentarista, eu cheguei a batizar de “Futebolton” o estilo que Wenger tanto repudiava. Ele oxigenou o futebol inglês, mas o futebol inglês de raiz nunca deixou de fazer parte também da Premier League. Estilos completamente diferentes convivendo juntos, algo que só aumentou o interesse pelo Campeonato Inglês. Mas e agora? Quem vai segurar a bandeira do futebol-arte na Inglaterra depois da saída de Wenger? Não é Conte e sua linha de defesa com cinco homens. Só pode ser mesmo Guardiola, um espanhol radicado no Barcelona, time com o qual o Arsenal foi tantas vezes comparado na era Wenger. Mas se hoje Guardiola tem emprego na Premier League é porque alguém abriu as portas para o novo, o belo, o diferente, a arte.

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Para Wenger, os meios são mais importantes do que os fins. Que esse professor francês seja devidamente homenageado pela Premier League nesse seu fim. É o melhor meio de manter o futebol inglês também bonito.

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Crédito da foto: EFE

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