Golovkin e Canelo dão show de boxe em luta espetacular

Empate frustra fãs, mas faz justiça ao desempenho impressionante dos pugilistas

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Por Victor Gomide

Esqueça as papeletas. Desde que o Boxe é Boxe, elas trazem mais confusão e discórdia do que concordância.

Desde que o Boxe é Boxe, o espetáculo que interessa é decidido por punhos e pugilistas - não juízes com seus critérios misteriosos. E, no sábado, tivemos um grande espetáculo no encontro de Gennady Golovkin e Saúl "Canelo" Álvarez. Que luta!

Os dois maiores lutadores em atividade estavam no ringue. Cada um com seu estilo e sua estratégia, ambos na ponta dos cascos. E ofereceram 12 assaltos do melhor da Nobre Arte. A luta do ano.

Depois de um início avassalador de Canelo nos três primeiros assaltos, o que se viu foi um GGG caçando o mexicano pelo ringue. Como uma fera atrás da presa, ele tentava encurralar o adversário para encontrar a distância de seus potentes golpes. Dominava as ações e andava para frente. Desferia muitos golpes, mas não abalava o rival.

Em momento algum, seu oponente parecia desconfortável. Não se acuava. Defendia quando o russo se aproximava, pendulava, girava, fechava a guarda e via a fúria de GGG passar zunindo pelo seu rosto. Quando atingido, assimilava. Irônico, encarava a fera nos olhos balançando a cabeça em sinal de negativo. Guarda baixa. Impávido.

No córner, enquanto Golovkin parecia estar com o tanque esvaziando, o mexicano era pura serenidade. A essa altura, o rosto do adversário já trazia marcas das luvas de Canelo.

O nono round foi de troca franca de golpes. Os dois alternavam os papeis de ataque e defesa magistralmente. Poderosos ganchos, diretos e uppers foram disparados. Alguns encontraram seu destino. A qualquer momento, um deles poderia cambalear.

A expectativa aumentou. Os pugilistas deixaram a estratégia um pouco de lado. A luta virou uma briga. Ataque, contra-ataque, esquiva, clinch... Emoção. E muito equilíbrio.

A essa altura, Golovkin diminuía um pouco o ritmo. Canelo adotava uma postura mais agressiva. Os últimos rounds foram eletrizantes. O mexicano desferiu uma saraivada de golpes. Acertou o rosto do russo - que assimilou todos, comprovando também ter um queixo de aço. Impressionante.

Os 12 rounds acabaram e, com eles, chegou a hora de revelar o que os juízes viram da luta. Nenhum deles concordou. Cada um apontou para um lado. E aí?

O empate deixa um gosto frustrante para os amantes do esporte. Muitos esperavam por knock-downs e, eventualmente, um nocaute, é dificílimo apontar um vencedor no confronto. O motivo é simples: para haver um vencedor, é preciso que exista um derrotado. E quem consegue apontar o dedo para Canelo ou Golovkin e falar: “esse aí perdeu”?

Há dois caminhos para analisar o confronto. Em favor de GGG, o fato de buscar a trocação, andar para frente e, em muitos momentos, encurralar o rival. Por outro lado, Canelo traçou uma estratégia mais defensiva, deixando o russo lançar mais golpes, dominar o centro do ringue e, com isso, se desgastar mais. Julgou que fosse "amansar a besta".

Se tivesse que apontar um vencedor - o que, felizmente, não foi minha incumbência -, penderia um pouco para Canelo. Por uma razão: entendi que ele esteve mais confortável e teve mais sucesso para cumprir seu plano tático durante o combate. Mas, ainda assim, estou falando de uma análise de toda luta - e não round a round. Novamente, quando a obrigação é definir um 10-9 ou um 9-10, a coisa complica dramaticamente. Qualquer resultado seria aceitável, razoável e justo.

Agora, resta aguardar pelo próximo encontro dos dois e torcer por outro espetáculo tão majestoso quanto esse. Quem sabe, dessa vez, ninguém se preocupe com a opinião dos juízes e suas papeletas? 

O Boxe agradece. 

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