Dois vencedores no épico duelo entre Mayweather e McGregor

Depois de quatro rounds de muita tensão e equilíbrio, americano impõe maior técnica e estratégia a valente irlandês – que surpreende com bom boxe, mas sofre com falta de gás

320169
False

Por Victor Gomide

Quando McGregor desafiou José Aldo pelo título dos penas do UFC, todos duvidaram que teria tanta chance quanto seu discurso, sempre arrogante, garantia. Treze segundos depois do início da luta, Aldo estava no chão e o irlandês bradava, sentado, na grade do octógono. O público fervia em êxtase diante do mito que surgia. O cinturão linear era dele.

Quando desafiou o campeão da categoria de cima – Rafael dos Anjos –, a dúvida era: os socos de Conor causariam o mesmo abalo em lutadores mais fortes e pesados? O que se viu foi um passeio do ruivo sobre Eddie Alvarez que, meses antes, havia detonado um irreconhecível dos Anjos.

Veja a programação do FOX Sports

Entre essas duas lutas, o irlandês sofreu com a falta de gás e o pouco conhecimento de chão quando foi finalizado, com um mata-leão, por Nate Diaz. Obcecado, insistiu e promoveu uma revanche com o americano, combinada para 77 quilos (meios-médios). Dessa vez, duvidaram de sua potência e, sobretudo, de sua resistência. Dominou e machucou Díaz por cinco rounds. O último teste havia sido feito – e ele passou.

Depois disso, o que ele poderia almejar? Uma luta contra Tyron Woodley, o atlético e explosivo campeão da categoria? Um desafio a Michael Bisping, dos médios, conhecido por seu bom boxe que prescinde, porém, de potência nos golpes?

Não. McGregor queria justificar seu apelido, “The Notorious” (“O Notório”). Tal como Ícaro, mirou o voo mais alto de sua carreira: enfrentar o maior campeão do boxe, aposentado, e invicto, Floyd Mayweather.

Quem poderia imaginar que essa luta poderia acontecer? Apesar de todas as apostas serem contra, Conor já havia provado que era capaz de qualquer coisa. Esse encontro aconteceu. E foi espetacular!

Depois de longo caminho para cuidar de contratos, valores de bolsas, tamanho das luvas...Eis que os dois estavam alinhados para entrar na área de luta. A arena estava em êxtase absoluto. A ansiedade e tensão eram enormes. O ar tinha textura densa. Público, profissionais de imprensa e entourage dos atletas, certamente, estavam com a frequência cardíaca disparada. Apreensão total. Afinal, o que viria a seguir? Em alguns minutos, essa resposta começaria a ser escrita.

Saiba mais

Real recebe proposta por Bale

Ex-Flamengo marca golaço

Brasileiro de saída do Barça

Apesar de tudo isso, o que se viu foi um McGregor caminhando para o ringue com sua já conhecida expressão confiante, segura. Sempre marrento. Parecia saber que, contra todas as previsões, iria chocar novamente o mundo – como das outras vezes. Será?!

No outro lado, Mayweather entrou usando uma balaclava através da qual só se podia enxergar boca e olhos. Estaria ele querendo esconder alguma emoção – talvez por causa dos dois anos sem um confronto profissional? Será?

As câmeras não paravam de focar os dois. Cortavam de um para o outro. McGregor. Mayweather. McGregor. Mayweather. McGregor. Mayweather. E, entre um corte e outro de câmera, o que quase passou despercebido foi que o altivo, confiante e essencialmente arrogante McGregor parecia ter entendido o tamanho do desafio que tinha diante de si. Tudo seria diferente, ele sabia. O esporte. As regras. O ringue. O público. A arena. O adversário...

E, pela primeira vez, as câmeras captaram o que a marra e o talento do irlandês para atuação sempre esconderam com perfeição: os olhos de McGregor exalavam... Medo. Sim, McGregor despencou do personagem. Sem querer.

Como um ator que esquece suas falas no meio da cena, ali estava ele: dentro da jaula, sem ter para onde fugir, diante de um leão faminto e, agora, revelando uma tensão e uma expressão que nunca havia sido flagrada antes. Ele sentia medo.

Quando o ringue se esvaziou, o gongo tocou e a batalha começou, no entanto, o profissional reassumiu o controle. As palavras antes esquecidas voltaram com tudo, num ritmo e confiança que formavam frases muito bem articuladas, harmônicas, surpreendentes. O irlandês partia para cima do maior campeão do boxe.

McGregor atacava Mayweather. Não se pode dizer que o adversário estivesse acuado, ainda que nas cordas. Com o braço direito, desferia jabs e controlava a distância. Sereno, o americano apenas pendulava, recuava e escondia o rosto com seu braço esquerdo abaixado, o ombro levantado e a mão direita engatilhada para um contragolpe rápido a qualquer momento. Estava confortável.

Essa foi a tônica dos primeiros três minutos. E se repetiria, com algumas poucas diferenças, dois assaltos seguintes – em que o irlandês buscava o confronto, andava para frente e disparava cruzados, uppers e ganchos.

Procurou, procurou, procurou. Poucas vezes, encontrou. Aqui e ali, tocava americano – impávido. Conor tentava o seu melhor. E percebia que, talvez, seu melhor não tivesse armas suficientes para, outra vez, chocar o mundo.

Já com o adversário estudado e o timing afiado, Mayweather também começava a soltar seu jogo. O rosto de McGregor sentiu o vento das mãos do campeão enquanto passavam zunindo por ele.

A partir do quarto round, as pernas do irlandês já não dançavam como antes. O fôlego também já se denunciava na boca aberta e nas profundas respiradas que dava no córner, nos preciosos 60 segundos que tinha para descansar e recuperar a energia. Os golpes não tinham mais velocidade ou força como antes. O americano, cinco centímetros menor, parecia crescer. Estava por todo ringue. McGregor andava para trás – movimento que faria pelos próximos seis assaltos. Até o fim.

Dali em diante, “Money” desfilaria sua arte. Sequências de golpes intercaladas com suas magistrais esquivas, ditava o ritmo e acuava o adversário. O falastrão, agora, recuava e tentava se defender enquanto ainda projetava os braços, exaustos, à procura de um golpe fortuito capaz de abalar o americano.

Os rounds passavam, assim como o gás de McGregor. E o roteiro se repetia – sempre mais dramático para o “Notório”. Por outro lado, a cada minuto que ele resistia ali, em pé, era um a mais de glória que escrevia em sua história.

Era a estreia dele no boxe profissional. Contra o maior lutador das últimas décadas. Talvez, de todos os tempos. E perdia – mas o fazia com honra, bravura e dignidade.

É certo que, por muitas vezes, mostrou movimentos nada ortodoxos no boxe. Clinches em que, instintivamente, parecia procurar a queda. Outros em que abraçava Floyd pelas costas e o atacava nessa posição – mais comuns no MMA. Para não falar dos incontáveis socos e marretadas na parte de trás da cabeça – muito timidamente advertidos pelo árbitro Robert Byrd.

Fato é que as mãos do americano passaram a atingir o irlandês com mais eloquência. Ele cambaleava e caçava “Money” atrás de abraços. A essa altura, ele já procurava amparo para o corpo, exausto. Não queria mais luta. Queria ar. Queria respirar.

No nono round, as pernas balançavam a cada contato em seu corpo. Sempre pendendo para trás, McGregor sabia que seu fim estava perto. Apoiava-se nas cordas e resistia o quanto podia aos ataques coordenados e impiedosos de Mayweather – sempre pressionando. A sensação era de que não veria o décimo round. Suportou o castigo. Dessa vez.

Quando o gongo soou para o que seria o último assalto, o destino já estava traçado: restava saber como seria o desfecho para a inevitável 50ª vitória do fenômeno americano. E ela veio com justiça, ainda que com uma frustrante interrupção do juiz.

Inexplicavelmente, depois de uma sequência de golpes do americano, ele interrompeu a luta – como fazem seus pares do MMA – quando viu que McGregor não reagia mais. Exausto, porém, sem ficar grogue. Sem um knock-down. Sem abrir contagem.

Nocaute técnico. Resultado justo. Indiscutível. Porém, a interrupção do juiz poderia ter sido depois.

Foi uma aula de estratégia e técnica do multicampeão de boxe. Sem sofrer um arranhão, saiu do ringue com seus mais de US$ 100 milhões no bolso, a reputação inabalada e fechando a carreira com a 50ª vitória. Sem conhecer o gosto amargo de um revés.

#Respect

Uma publicação compartilhada por ufc (@ufc) em

Do outro lado, ainda que com o topete menos empinado, não há motivo para McGregor baixar a cabeça. Por dez rounds, mostrou muita luta e coragem. Enfrentou destemidamente um oponente visivelmente superior e não jogou a toalha. Sai mais muito mais rico e, sobretudo, maior como atleta depois desse episódio. Perdeu ganhando.

A pergunta que fica no ar: o quer será que ele quer agora? Alguém ainda duvida que ele consegue?

Deixe seu comentário