Rodrigo Bueno: Todos os times precisam de um Lugano

Comentarista dos canais FOX Sports analisa permanência do zagueiro uruguaio até o fim da temporada no São Paulo, justamente em um dos piores momentos do time

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Para o bem do São Paulo e para a perplexidade de muita gente, Lugano renovou contrato com o clube até o final do ano. Aceitou redução salarial e não faz questão de jogo de despedida em sua homenagem mesmo depois de ter sido tratado de forma injusta por seus superiores. Poderia muito bem sair agora do time, que corre risco de rebaixamento no Brasileiro, aceitando proposta da Unión Española, do Chile, ou voltando para o seu Uruguai querido. Manteria assim intacta sua condição de ídolo da torcida e deixaria a bomba com Rogério Ceni, Leco e seu novato diretor de futebol, que se livrou de vários defensores (Maicon, Breno e Lucão) e agora foi ao mercado na base do desespero, sem o devido planejamento.  

Desde que voltou ao futebol brasileiro, Lugano tem sido relegado a segundo plano pelo seu técnico e por seu presidente. E tem sido diminuído por grande parte da imprensa nacional, algo com o qual já estava bastante acostumado. Mesmo quando estava no auge, pilar do São Paulo campeão da América e do mundo em 2005, ele era visto por muitos não são-paulinos como um zagueiro limitado tecnicamente e um tanto quanto truculento, às vezes violento. Essa visão permanece na cabeça de muitos jornalistas, que o destratam mesmo quando ele está no banco de reservas ou quando ele nem é relacionado. Velho, bichado, inútil, ultrapassado, grosso…Como pode o São Paulo ter resgatado um tosco defensor uruguaio decadente?

Uma análise simplista ignora o fato de ele ser um ídolo tricolor quase do tamanho de seu treinador, que atuou por muito mais tempo do que ele com a camisa são-paulina (e que melhorou em todos os aspectos quando esteve ao lado de Lugano). Uma análise dos números de “Diós” nesta passagem mais opaca pelo clube do Morumbi mostra que ele ainda tem valor em campo sim. Com ele, o São Paulo leva menos gols em média por jogo do que com outros zagueiros. Ele não falhou feio como outros na temporada. Ele não é pior que Douglas, por exemplo, mesmo nesta fase final da carreira. E ele continua sem perder dos maiores rivais (não atuou muito nos clássicos nesta passagem, é verdade, mas ele foi titular no 1 a 0 diante do Palmeiras em 2016 no Morumbi, por exemplo).

No momento em que a pressão é enorme sobre Rogério Ceni e, sobretudo, sobre o presidente do clube, Leco anuncia com pompa para a torcida em seu Twitter que acertou a renovação com Lugano. Fez isso só aos 45 minutos do segundo tempo, deixando um ídolo sem poder planejar bem sua vida pessoal (mudança de país, escola das crianças, entre outras coisas). Renovou talvez contra sua vontade mais para amainar a ira da arquibancada, para aproveitar o carisma de Lugano como um escudo. E o valente uruguaio, que entrou na fogueira na Arena Baixada e depois contra o Fluminense (sem comprometer atuando num sistema de três zagueiros ou numa linha de quatro na defesa), aceitou a oferta tricolor, mesmo um tanto quanto triste. Basicamente, porque sua ligação com a torcida é poderosa.

Lugano não precisa mais de dinheiro, não só por ter acumulado uma boa grana em sua vitoriosa carreira (ganhou títulos de expressão por clubes na América e na Europa, além de ter sido campeão e capitão da Celeste) mas por ser um cara dos mais simples, como mostrou em sua passagem curta e bem-sucedida pelo Cerro Porteño no Paraguai, onde andava de ônibus sem nenhum luxo e distribuía bicicletas para as crianças. Alguns dizem agora que ele precisa mais do São Paulo do que o contrário. Engano puro. Lugano, dentro e fora de campo, é das poucas coisas boas do clube.

Aquele jogador gringo que chegou como o “cara do presidente” (o cada vez mais saudoso Marcelo Portugal Gouvêa), aquele cara que de forma singular não trocava camisa com o adversário por valorizar mais que tudo o uniforme que veste (não o negocia), aquele cara que não afina nem mesmo na hora em que há invasão de torcida enfurecida no CT, é o mesmo cara que agora terá mais alguns meses para dar lição de amor a um clube, para dar exemplo de caráter, para ser valente. Não precisa de multa de R$ 5 milhões no contrato, não precisa de direito de imagem, não precisa de despedida ou festa individual, não precisa nada além de amor à camisa.

O São Paulo, assim como todos os times, precisa de mais Luganos.

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