
Tenho por hábito desconfiar de verdades absolutas. Tratemos de uma "verdade" que ouvimos há muito tempo. Na esteira dos absurdos provocados por uma infinidade de cartolas, criou-se a definição que o ideal para time, clube ou departamento de futebol é que seja dirigido por um ex-jogador. Alguém com vivência de quatro linhas. A verdade já caiu por terra em relação a técnicos. E agora está caindo em relação aos dirigentes.
Ser ex-jogador não credencia necessariamente ninguém a exercer função diretiva no clube. Ou pelo menos não isenta o jogador travestido de cartola de erros amadores. Vejamos exemplos recentes.
Roberto Dinamite, maior ídolo da história do Vasco, herdou um clube complicado pelos equívocos e abusos da administração anterior. Porém, já em seu segundo mandato, Roberto não mostrou qualquer avanço em relação a seu antecessor. Enfraqueceu o time e tem convivido nos últimos dias com a desagradável realidade de sequer ter água no clube, já que deve mais de R$ 1,3 milhão à empresa fornecedora do precioso líquido. As demais dívidas, que inviabilizam que receba o dinheiro de uma estatal com quem assinou contrato de patrocínio, é outra prova que as coisas não estão bem resolvidas em São Januário.
não é o fato de ter sido atleta que necessariamente faz do novo dirigente um poço de virtudes, nem do dirigente que foi formado fora do campo um fazedor de bobagens
No Palmeiras, César Sampaio assumiu o futebol há quase um ano e não mostrou ao que veio. O time se afunda em crises seguidas, os problemas de relacionamento entre o ex-técnico e o grupo eram evidentes. O ex-volante da Seleção Brasileira, cuja contratação fora respaldada por experiências anteriores como sócio de empresa de gestão esportiva, não mostrou no gabinete a mesma qualidade que apresentava nos campos. O ápice desta fracassada, até aqui, gestão, foi participar da demissão de Luís Felipe Scolari sem dispor de um nome para substituí-lo. Mais amador impossível.
Por falar em fracasso, o Flamengo parece ter uma cartilha do como não fazer para seus ex-craques que se aventuram como cartolas. Zinho, o diretor executivo da vez, até que faz um trabalho razoável, visto a sucessão de problemas despejados sobre sua cabeça desde que assumiu. Mas mesmo assim pisou na bola recentemente. Fechou uma troca de Negueba, Hernane e Thiago Medeiros por Cléber Santana e Renato Santos. Pode ter fechado o negócio com o Avaí, porém se esqueceu de conversar com seus jogadores. Negueba e Hernane, com todo direito, aliás, não toparam a troca e o negócio parece ter melado. Zinho sabe que antes de anunciar uma transação, o clube deve fechar todas as pontas, inclusive com os jogadores. Há dois anos, foi Zico, o maior jogador da história do clube, que não foi feliz como dirigente. Contratou mal e no desespero.
De qualquer forma, Zinho e Zico não podem ser acusados de omissão. Eu tenho, entretanto, uma dúvida sobre outro ex-jogador que atua como diretor profissional. O que faz mesmo Edu Gaspar no Corinthians? Sinceramente não sei. Me Lembrei dele essa semana, quando li que ele reprovara as mensagens de twitter postadas por Emerson Sheik que ironizavam a má situação do Palmeiras no Brasileiro. Mensagens, diga-se de passagem, bem leves e sem ofensas à instituição rival. Com toda a pompa e circunstância que seu cargo lhe dá, Edu disse que Emerson fora indisciplinado. Ah, tá bom. Curiosamente, Edu Gaspar, que foi um jogador disciplinado, não fez qualquer menção contrária ao comportamento do mesmo Emerson, expulso tolamente contra o Atlético-MG ao ofender com toda sorte de palavrões o árbitro Péricles Bassols. Quer dizer, fazer uma postagem no twitter é indisciplina, mas xingar o árbitro, ser expulso e pegar um gancho pesado por causa disso não é. Obrigado, Edu, pela lição que só um ex-jogador, convertido em cartola, poderia dar.
Fica a certeza que não é o fato de ter sido atleta que necessariamente faz do novo dirigente um poço de virtudes, nem do dirigente que foi formado fora do campo um fazedor de bobagens. Não existe fórmula pronta, verdade absoluta. O que existe é profissional que sabe ou não sabe executar seu trabalho.
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